Entrevista de Eduardo Quive publicada na revista literária mocambicana Literaras

Literatas: Como é o seu processo de criação? Como surgem os textos?

Rita Dahl (R.D) - Não há nenhuma resposta digamos regular nessa pergunta. Os textos surgem como surgem. As vezes estou inspirada pelos lugares que visi-tei ao todo mundo da Europa até América Latina, outras vezes me fascina escre-ver ensaios sobre coisas bem mais vastas como poesia/política.

Literatas: E como define a sua literatura?

R.D - A minha escrita varia. Escrevo poesia, ensaios, livros de viagem, contos,não - ficção, e as vezes especialmente a minha poesia poderia ser definida como textos híbridos, que atravessam as fronteiras da poesia, prosa e ensaios. Por alguma razão textos híbridos, que vem bem facilmente de mim. Acho que textos híbridos se relacionam também com a escrita africana.

Literatas: Quais são as questões que mais procura levantar nas suas obras?

R.D - Não há só uma única resposta nessa questão. Quero em primeiro lugar uma Poesia Híbrida Escrever poesia é ser mais do que si própria, é ser muitas vezes algo que desconhece. Mas da sua palavra acredita que o mundo sobrevive, tal como a semente que gera os frutos que saciam barrigas vazias. E é mesmo assim “escrevo textos híbridos que atravessam as fronteiras da poesia”, talvez porque “acho que textos híbridos se relacionam também com a escrita africana”. Estamos no meio duma viagem literária para fora. Fora de Moçambique e dos países da CPLP. Transgredimos a regra editorial? Não. Estamos fora dos países de expressão portuguesa, mas estamos dentro da lusofonia, estamos dentro do horizonte de falantes do português.

Uma entrevista a escritora finlandesa Rita Dahl. Poetisa, ensaísta, contista e descrevista de embarcações. Uma viajante de múltiplas falácias. Fala e escreve em sete línguas e tem maior influência nos países de expressão portuguesa.

Rita Dahl é uma proposta para inspirar e levantar muitas questões variadas na minha obra. Até agora tem sido por exemplo países lusófonos, a justiça e responsabilidade social, a liberdade da palavra, poesia/s em línguas lusófonas (e outras línguas também, explorando principalmente as sete línguas que falo), questões sobre a minha própria poética/política e poética/politica/s pelos outros poetas lusófonos (exemplos do poeta brasileiro Wilmar Silva que escreve usando na sua linguagem de amor, e poeta português Alberto Pimenta).

Literatas: Será a poesia o género que mais gosta de escrever? Porquê?

R.D - Não só. Eu procuro sempre ser ―múltipla‖ como disse Walt Whitman. Vou ain-da escrever prosa, gostaria de escrever também romance/s, publicar livro/s de ensaio/s e mais livros sobre temas sociais. Vejo se um dia chego lá.

Literatas: Embora finlandesa, tem procurado se evidenciar nos países falantes de língua portuguesa, no caso concreto de Portugal e Brasil. O que a leva a pautar por esses caminhos?

R.D - Não só Brasil e Portugal. Tenho traduzido dois poetas de Angola e Cabo Verde também. Bom, curto dito, eu fiz a segunda licenciatura (Master's Thesis) sobre heterónimos de Fernando Pessoa e por isso cheguei a Universidade Clássica de Lisboa para estudar linguística por um ano. A primeira licenciatura fiz sobre Ciências Politicas. Depois tirei ainda mais alguns cursos de verão de português, comecei a traduzir a poesia escrita na língua portuguesa, embora que tenha traduzido poesia escrita em outros idiomas. Também organizo antologia da poesia finlandesa em português (será lançada no Brasil ainda este ano) e em espanhol (espero que seja lançada pelo menos em México, talvez em Argentina também).

Literatas: O que tem feito concretamente nesses países?

R.D - Para além do que já tinha me referido anterior-mente, tenho participado aos encontros (Encontro Internacional dos Poetas na Universidade de Coimbra, onde encontrei com poeta-performer brasileiro Márcio André, António Jacinto Pascoal, João Rasteiro e José Luís Tavares de Cabo Verde e leituras dedicados a minha poesia – ultimamente cantei Sibelius, Faure, em Coimbra, uma vez que sou soprano clássica. Participei no evento PORTUGUESIA ambos em Belo Horizonte, Brasil, e Vila Nova de Famalicão, Portugal, neste ano.Literatas: Entende que o que escreve carrega a universalidade?Depende do leitor. Espero que carregue, mas também somos criadores das nossas pró-prias culturas: isso é inevitável. Nem podemos, nem temos que nos adoptar completa-mente às outras culturas.

Literatas: Tem livros traduzidos para português?

R.D - Ainda não. Espero de o tiver ainda no ano próximo. Será lançado pelo Anome Livros de Wilmar Silva. Tenho alguns poemas publicados nas revistas brasileiras, como antiga revista de Confraria do Vento.

Literatas: Dentre vários livros seus, qual você considera o mais importante da sua carreira? Porquê?

R.D - Gosto muito do meu livro de viagem sobre Portugal e o último sobre Brasil, por-que ambos, são bem ambiciosos, muito mais do que guias, querem entender um pouco da mentalidade da gente e levantar questões críticas sobre temas como a justiça e responsabilidade social (especialmente quanto aos povos originais).

Literatas: Quais são os autores de língua portuguesa que conhece? Com quem tem mais contacto?

R.D - Teria que mencionar uma lista demasiado longa. Basta dizer que conheço mui-tos. Tenho mais contacto com alguns poetas brasileiros e alguns portugueses. Já mencionei alguns deles.

Literatas: Quais foram os seus melhores momentos na vida como escritora?

R.D - Ainda não posso responder essa questão. Ainda estou a espera do momento melhor. O momento último.

Literatas: O que é um escritor? O que o diferencia de outros na sociedade? O que é essencial para se ser bom escritor?R.D - Para mim, o escritor é alguém que escreve de obrigação interna numa maneira mais ambiciosa e variada do que o possível, e quer sempre encontrar mais escritores ambiciosos que pertençam ou não ao cânon literário.

Literatas: No início da sua carreira, terá escrito algo que achou não ter qualidade?

R.D - Bom, eu comecei a ler a literatura (Dostojevcki, T.S. Eliot) e escre-ver aos 11 anos. Com certeza escrevi – e ainda escrevo – algo sem tanta qualidade, mas eu fui desde início, ambiciosa quanto a escrita e estudos: quero exprimir em primeiro lugar minhas facetas várias numa maneira literária.

Literatas: Qual é a sua maior preocupação antes e depois de lançar um livro?

R.D - Eu queria que o meu livro fosse lido por profissionais e que o criti-cassem e pelos júris, podendo o nomear como candidato de diversos pré-mios (preferivelmente com prémios de dinheiro) e finalmente pelos leito-res digamos ―inferiores. Para o livro (da poesia) chegar às mãos deles é preciso se obter boa crítica.

Literatas: Quando se fala de literatura no mundo, pouco tem se destacado a Finlândia. O que acha sobre isso? O que origina o anonima-to da Literatura desse país?

R.D - Finlândia é um país com 5 milhões de habitantes. O facto do país ser tão pequeno pode constituir um dos motivos. Por outro lado, não temos muitos faladores da língua portuguesa que poderiam transmitir a informação e seu tempo para esta causa.

Literatas: Que referências literárias tem de Moçambique?

R.D - Mia Couto, no primeiro lugar. Não conheço mais referências. Infelizmente.A literatura moçambicana é conhecida, em primeiro lugar, pelos roman-ces e contos de Mia Couto, que – quanto a mim – é um dos melhores, senão o melhor, na língua portuguesa em África.

Literatas: Tem contacto com a Literatura Africana? O que sabe dela?

R.D - Claro que tenho contacto com a literatura africana pela leitura e pelas visitas a Nigéria (em Book and Art – festival no ano 2006 e na conferência entre escritoras de Saudi-Arabia e escandinavas no ano 2008 - isso foi em Egïpto). Organizei também um projecto com escritores africanos dos vários países anglófonos e escritores finlandeses. Como vice-presidente de PEN Clube da Finlândia e presidente do comité das escritoras (2006-2009, 2005-2009) organizei um evento internacional para escritoras de Ásia Central e duas antologias, uma das quais bilingue.

Literatas: O que podemos esperar da Rita nos próximos tempos?

R.D - Espero que um livro de poesia. A antologia da poesia portuguesa editada e traduzida por mim com 10 poetas. O livro de ensaios sobre poe-sia e política. Perfil dum poeta conhecido finlandês. E quem sabe mais coisas!

Comments

Popular posts from this blog

Kirjallisuus, valta ja vastuu -keskustelu huomenna

Sosiaalinen erakko

Surullisen hahmon ritari