A poética dos lugares

A poética dos lugares
Rita Dahl





Observo espantada a rapidez com a qual os veículos passam na rua. Alguns rapazes que estão consertando suas motos na calçada me gritam em tom amigável: “Uluku Pepe!”. Depois de algumas semanas, observo a velocidade nas ruas de Helsinki, agora dentro dessa realidade dita “civilizada”. Será que os veículos passam nas ruas mais lentamente que em Lagos onde o tempo também é dinheiro – nunca tinha visto ambulantes passando tão rápidos pelos carros, para vender seus artigos.



Sujeito aos lugares, o poeta chega ao êxtase, pois estar fora de seu país não é só estar fora de sua terra, mas é também estar mais próximo de si mesmo. O poeta é si próprio, mas é, mesmo tempo, um outro. É ambos; alguém que espelha e é espelhado concomitantemente. Para mim, este sentimento leva ao êxtase. Sair da casa e ir a lugares estranhos é para mim a única possibilidade de agarrar-me a mim mesma, a minha identidade, mesmo que seja temporariamente. Na viajem, encontro o outro, que é o meu especulo, ainda que sempre um pouco diferente. Estou sempre à espera desse encontro. Talvez eu esteja também um pouco dependente deste encontro. Isso levanta a questão de saber porque nunca estou bem em casa. Se eu pudesse responder a essa pergunta, a minha vontade de viajar talvez acabasse. Mas não quero isso. Estou em um círculo do qual não posso sair, e talvez não queira. É um dos únicos círculos no qual estou firmemente assentada; os outros são a liberdade e a arte. Ser no ar.



Os lugares fertilizam a minha poesia. Sempre fertilizaram. Tanto nos países no norte, quanto nos países no sul (essa é uma diferenciação genérica, conhecida como polarização entre os países ricos e pobres – o Norte e o Sul). Quanto mais viajo pelos países do Norte e do Sul, mais fico convencida de que só temos um tema em comum. Esse tema é a globalização. Muitas vezes, parece-me que a globalização nos faz ser e se comportar de determinada maneira. Claro que existem os países “colonizadores” e os “colonizados”, os que compram e os que vendem, sempre com o preço sob-valorizado. às vezes, gostaria de saber como seria o nosso comportamento sem essa palavra com G? Mas essa é uma pergunta impossível de responder – a palavra com G será a ideologia dominante por m muito tempo ainda.



O que seria a poética dos lugares nesse mundo com e sem as fronteiras ao mesmo tempo? (As fronteiras verdadeiramente existem, especialmente entre lugares estrategicamente importantes, como Europa e Norte de África, México, América Latina e os Estados Unidos. Estas são fronteiras entre a realidade e a irrealidade; os mundos chamados real e imaginário. Certos passageiros, inclusive, são colocadas em barcos bem frágeis para poder chegar aos limites da sua própria existência, ou mesmo para poder transcendê-los. Mas, no outro lado, podem se deparar com uma grande surpresa – a polícia, em seu primeiro e ultimo encontro. Essa gente é chamada de “ilegais”.) A nós nos sobra somente um mundo verdadeiramente desejado: o mundo dos compradores, dos neo-colonizadores.



Isso é uma tentativa de ilustrar os poemas em prosa do meu livro “A Vida em Lagos” (ntamo 2008). Nesses poemas reflete/m-se o/s mundo/s similar/es do Norte e do Sul; o mundo assentado na rapidez e na afetividade, entre a razão e a loucura.



No livro “O Tempo dos Aforismos” (PoEsia 2007), comecei a utilizar os “discursos coletivos”, que selecionava através de motores de pesquisa na Internet. Esta poética é feita a partir de pesquisas diárias na internet, e vão de declarações angustiadas, cheias de gírias e palavrões, até os discursos mais burocráticos e acadêmicos.



A poética dos lugares nem sempre tem a ver com os lugares mais irreais, lugares cheios de imaginação ou sentimentos ligados a eles. O Brasil, por exemplo, é para mim um país, antes de tudo, romântico, que se realiza especialmente nas montanhas e nas praias do Rio, mas também nas ruas. Há vida real nas ruas do Rio com seus mendigos pedindo esmola, algo bem distante da vida esterilizada e limpa nas ruas dos países do Norte Europa.



Transe e poesia: a poética de resistência



A transcendência da poesia pode vir de outra forma também. A poesia é um meio clássico de transcender os limites da realidade, utilizada já desde a antiguidade. No princípio a poesia era cantada por gente especializada. Era a forma oral de divulgar a poesia para os membros das comunidades servia, com fins comunicativos. A poesia, nessa altura, servia para divulgar notícias importantes. Era um meio antigo que substituía o jornal, hoje em dia. Mas a transcendência pode ser obtida através de outros caminhos também; no meu caso com o canto lírico.



O canto lírico e a poesia são uma combinação perfeita para transcender os limites do mundo real em direção ao imaginário – porque um dos objetivos da poesia deve estar na resistência em só descrever a realidade em que vivemos. Para mim, a simples verossimilhança não é suficiente para se fazer poesia. No livro que estou escrevendo agora, quero que a poesia proponha algumas coisas para o humano e que seja algo político. A realidade em que vivemos (de agora e de sempre) é profundamente artificial. A nós nos são empurradas diversas necessidades, como o consumo e o sexo desenfreados, como formas errôneas de se chegar a uma “verdade”. Esse mundo com G já não respeita nenhuma lei. Não respeita a criatividade, o pensamento e nenhuma das tantas outras coisas que necessitam gerar-se de forma lenta, obscura e no campo da indefinição. Por isso, o mundo chamado “real” é para mim irreal, e, nesse mundo monótono, a poesia e as outras artes podem vir a ser um refugio distante. E é por isso que eu procuro refúgio nos outros mundos através da poesia e do canto combinados. Dessa maneira posso chegar ao limites do mundo real: um outro mundo, mais belo, mais justo, mais perto dos meus próprios valores e pensamentos. Alguns chamam isso de escapismo, que seja! Para mim não é isso. Para mim é a verdadeira realização de mim mesma.

E, com certeza, é também uma forma de resistência contra um mundo homogêneo. Uma resistência que tem o poder de criar mundos paralelos ao lado dessa realidade reduzida. Essa resistência só deseja libertar o mundo, esse que é, na verdade, uma prisão livremente escolhida, no qual lutamos para sobreviver um dia após o outro. Essa fuga voluntária e artística não só é libertadora para mim, mas para muitos outros também. Essa resistência quer dar a real importância ao mapa do imaginário, isso que, no mundo chamado “real”, é desprezado. Mas é o mundo mais belo dos todos. Por isso prefiro sempre chegar nele.




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Rita Dahl é poeta finlandesa, autora de diversos livros de poemas, organizadora de antologias, atua de maneira constante na divulgação da poesia finlandesa em Portugal e no Brasil, através de coletâneas. Também realiza o caminho inverso, divulgando poesia portuguesa na Finlândia. Para nós, ficou a sensação de que a verdadeira pátria de Rita Dahl é, acima de tudo, a Poesia. Sem fronteiras.

Publicado por dEsEnrEdos, ano III, nro 11

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