Säröjä purppuranvärisessä järvessä

Rita Dahl
Säröjä purppuranvärisessä järvessä


São raros os encontros com a poesia verdadeira, com os fins ambiciosos quanto à linguagem: a poesia que questiona os limites da língua, os gêneros, o mundo quotidiano, a vida real e mesmo os seus próprios limites: a sua própria ontologia e epistemologia e condições de criar um mundo literário. A poesia da Wilmar Silva em Estilhaços no Lago de Púrpura (Säröjä purppuranvärisessä järvessä) pertence, sem dúvida, a essa categoria da poesia inovadora, a poesia que tenta criar a sua própria ontologia e epistemologia, mesmo que seja uma tentativa quase inatingível, porque a poesia fluida está sempre em movimento, em estado de devir, desenvolver, sem nunca estar completamente terminada.

O poeta Wilmar Silva está buscando, nas palavras do filósofo frânces Julia Kristeva Khora, um útero linguístico antes do nascimento da língua, onde ainda não existem categorias fixas, dicotomias ocidentais, um lugar onde a língua está sempre buscando os seus limites, as suas possibilidades e múltiplos eus sem limites aos mundos humanos, mas aos mundos da flora e fauna também. Esse khora é um espaço bem infantil onde a ruptura entre mundo exterior e interior ainda não tomou o lugar. Esse khora é um estado onde sínteses ainda são possíveis, onde o mundo racional, ordenado, ainda não entrou com suas fronteiras e categorias fixas. Khora representa-se como um espaço da liberdade linguística e sensorial. Esse tipo de liberdade que ainda existe na percepção da criança; a liberdade de encontrar-se assimilado com a natureza ou qualquer outra coisa exterior.

Essa fenomenologia e ontologia de Silva parece a ontologia ou o olhar da criança que é mais próximo da sintetização do observador e observado. Uma criança olha o mundo e seus fenômenos como se fossem sempre novos; sempre em estado de devir; nunca estáticos ou fixos. O olhar da criança ainda não tem a precisa separação entre o mundo interior e exterior; uma comprovação disso é, por exemplo, a constante sintetização da criança e da mãe, ou a maneira dela de olhar à natureza ainda não separada de si mesma. Silva aproxima essa maneira primária de olhar que ainda não virou um olhar adulto ordenado e racional, baseado em dicotomias e ontologia fixas. Em Estilhaços no Lago de Púrpura o mundo está ainda virginal, ordenado somente pelos movimentos causados pelos sentimentos. “iris, retinas, os meus olhos olham iris, retinas / olhos que cerram iris, retinas, olhos de vênus“: a fisiologia de um olhar muda, iris e retinas estão numa posição equivalente. Nenhuma parte fica em posição superior na produção de um olhar.

Com a língua de alguém que ama

Estilhaços no Lago de Púrpura inclui a poesia transcendental que está buscando os limites da poesia e do mundo real, os limites entre humanos, flora e fauna, entre eu e o outro convertido em outros eus. Tudo isso acontece por causa de um simples sentimento, mas divino: o amor, ou, às vezes, simples desejo. “eu quebrado por você sou estilhaços no lago de púrpura”: esse eu-falador pode falar ao seu amado ou mesmo para quem escreve, o leitor. Do amor vem o motivo literário que rompe o fixo eu e causa estilhaços inteiros no eu-lírico transformando em eus plurais, que são demonstrados em todos os poemas do Estilhaços: eus quebrados e misturados com o mundo humano, flora, fauna, “real” (que seria isso: existem só realidades percebidas do ponto da vista de cada individuo) e ir-real. Somente o amor lhe permite romper as bandeiras do mundo real e entrar ao mundo imaginário onde não importam as fronteiras “reais”: o ir-real desloca-se ao mundo real, ao mundo unicamente significativo para eu-faladores.

Sentimentos românticos mudam a poesia, que vem de um tipo de escrita alquimista, que mistura os tempos, os mundos, eu e outros conjuntos, e, enfim, mudam também a literatura romântica e moderna. Essa língua de alguém que ama é híbrida, uma metalíngua, que consiste também nos neologismos significativos para a (ir-)realidade do/s falador/es, como “todopiscoso”, “cadafalso”. Um homem vai ao fundo do seu amor, ao seu corpo, à sua língua, e isso muda profundamente não só a língua dele, mas também o corpo-realidade. Neologismos de Silva combinam imagens do campo, flora e fauna brasileira, e criam também uma outra realidade híbrida que já existe no momento em que foi anunciada.

Roland Barthes fala sobre a linguagem de alguém que ama, e o poeta Wilmar Silva mostra essa linguagem realizada. O amor faz um homem louco, que está ao mesmo tempo despersonalizado e personalizado: despersonalizado porque Barthes pesquisa a língua do amador usando a mesma metáfora dele: alguém que ama flutua na sua própria linguagem. O amador existe somente dentro dessa linguagem personalizada que não reconhece uma fronteira entre exterior e interior. Alguém que ama é assimilado com essa outro que é amado, e, essa assimilação obtém a sua realização mais perfeita na linguagem dele. Estilhaços no Lago de Púrpura é uma demonstração completa dessa linguagem que abandona o uso normativo da língua. Um homem apaixonado, e o corpo-realidade, incluindo a linguagem, estão mudados, o mundo interior e exterior são completamente misturados. O poeta cria a sua biopoiesis, que está baseada na terra. O homem está ordenado pela biologia – pelo seu corpo – e está diretamente ligado a terra e a imagens e metáforas da terra e do campo, no caso dos poemas de Silva, imagens do campo mineiro, do sítio onde Silva cresceu. Flora e fauna utilizadas no Estilhaços no Lago de Púrpura são típicas da aldeia onde nasceu o poeta Wilmar Silva, Rio Paranaíba, em Minas Gerais.

A fenomenologia da percepção de Maurice Merleau-Ponty supõe que a percepção fica sempre em primeiro lugar. A epistemologia e a ontologia de Merleau-Ponty são necessariamente interligadas. A prioridade das percepções não significa a separação do mundo exterior – realidade – e o mundo interior - subjetivo e, neste sentido, ir-realidade. Merleau-Ponty questiona a ideia do corpo separada do mundo exterior; na filosofia da percepção não existem dicotomias entre mundo exterior ou interior. O observador e observado - o sujeito e o objeto, a mente e o corpo – são necessariamente interligados pela experiência quotidiana, sem nenhuma dicotomia. A percepção é, para Merleau-Ponty, sempre ativada pela percepção sensorial, e essa atividade rompe as fronteiras entre o corpo e a mente, o mundo interior e o exterior. Nesse sentido a poesia em Estilhaços é bem merleaupontiana, o mundo sem hierarquias, onde não há dicotomias e diferenças entre mente e corpo, o interior e exterior. É tudo uma só totalidade, um eu-híbrido que se altera ao curso das mudanças da percepção sensorial. Merleau-Ponty acha que estamos principalmente em nossos corpos, e que a experiência vivida desse corpo renuncia o afastamento do sujeito em relação ao objeto, da mente em relação ao corpo, e esse pensamento é realizado na poesia de Silva em Estilhaços no Lago de Púrpura.

Uma busca metalírica

Na busca dos múltiplos eus e insistente tentativa de romper as fronteiras artificiais entre literatura romântica e moderna, está essa poesia bem metalírica, sem perder a sua essência. As raízes estão na biologia, um homem está sempre ligado ao seu corpo, corpo-realidade, ir-realidade mais dominadora, que vem a significar a realidade maior para eu-múltiplo no Estilhaços de Silva. Estilhaços está cheio das metáforas e imagens corporais: diferentes partes do corpo (de que se necessitam para fazer amor também: uma boca, um ânus, um pênis, os braços, as pernas, os olhos, os pés, os dedos, as costas, e líquidos do corpo: especialmente sêmen e sangue). Essa é a biopoiesis de Silva. Um homem – e especialmente um homem apaixonado, desejando e quase fisiologicamente mudando – não pode ser retirado da sua própria biologia, a sua “essência”.

O poeta tenta romper as fronteiras convencionais entre a poesia romântica e a moderna, a poesia metalírica para a qual não há necessariamente um fixo lírico-eu, mas eus plurais. Em Estilhaços o poeta – o autor – está constantemente re/deconstuindo não só a língua, mas eus múltiplos. Aos poemas de Estilhaços no Lago de Púrpura há sempre um falador, ou melhor: faladores, eus, que pela influência do amor, estão continuamente agindo de maneira que nunca permaneçam os mesmos, como os sentimentos mudam, e esta mudança afeta ao mesmo tempo a sua linguagem e o mundo exterior quando interage com o interior. Eu e Outro já não existem, ou o outro está interiorizado ao eu-falador, que concretamente rompe em pedaços com ajuda das barras. As barras mostram onde quebra o pensamento e começa um outro.

Já o uso do pseudônimo Joaquim Palmeira refere-se a este ato político, poético e metalírico, a ruptura: um poeta múltiplo tem nomes e caras diferentes que mostra na sua poesia, nos seus livros escritos com o seu próprio nome, ou com um nome criado só para isso. Pseudônimo Joaquim Palmeira já é um outro-eu, separado e integrado ao seu criador-autor, Wilmar Silva, que está no controle completo da sua obra, mais uma vez num sentido mais romântico da palavra. Isso se mostra também no ato criativo: às vezes Silva até desenha os seus próprios livros, como foi no caso da edição de Estilhaços no Lago de Púrpura, publicado em 2007 pela editora Anome Livros.

Uma rara obra completa

Estilhaços no Lago de Púrpura é uma obra completa que foi – e com certeza será – publicada em várias edições diferentes, com o desenho e a capa completamente diferentes. Essas edições variadas já mostram que a obra de arte é arbitrária. Eu tenho duas versões dos Estilhaços, uma possui na capa um desenho abstrato com muitas cores; na outra, a capa é transparente e há uma imagem de um homem nu saltando pelo livro. A transparência continua em visualização de todo o livro: um poema é sempre colocado na página esquerda, e a página direita é completamente vazia, como um espelho aonde mira um leitor, um homem apaixonado pela sua imagem, ou pela imagem do outro, seja isso alguém do mundo humano, vegetal, animal ou do mundo morto.

Assim sendo, Estilhaços é uma verdadeira obra de arte no sentido romântico da palavra: uma obra que combina o conteúdo com a forma. A forma fluida e a ideia de um homem apaixonado procurando todos os seus rostos não só pela linguagem e rompendo dicotomias e categorias convencionais, mas também por uma página cheia e vazia: a transparência da língua. Essa é poesia bem pensada, tão rara hoje em dia, a poesia na qual o conteúdo e a forma se encontram em harmonia completa. Isso é raro no mundo em que tantos livros de poesia são publicados sem serem bem pensados, obras que carecem de conteúdo poético.

Estilhaços no Lago de Púrpura é um livro muito significativo no cânone literário lusófono, um livro ao mesmo tempo poético e político: político, em primeiro lugar, na sua maneira de romper com todas as categorias “normais” existentes no mundo chamado real; e, em segundo lugar, na sua tentativa metalírica de introduzir eus plurais, tentativas de confundir a identidade e as fronteiras entre o autor, o leitor, alguém que ama, e alguém que é amado.

O poeta Wilmar Silva também é uma obra da arte em si mesmo: uma ponte entre os mundos lusófonos, um ativista poético que se torna político por suas atividades, um divulgador das poesias, Wilmar Silva é também um poeta que está constantemente pensando e renovando as suas poéticas que se alargam desde a poesia conceptual até a poesia lírica, inclusive a romântica. Suas faces são muitas, como mostrou já o poeta clássico no cânone literário lusófono Fernando Pessoa com seus heterônimos. Wilmar Silva está sempre em busca das suas facetas, eus múltiplos, com ajuda dos pseudônimos, cuja identidade é conhecida para o leitor, ou a sua própria identidade, e há sempre pensamento atrás dos seus livros. Nesse sentido, Wilmar Silva é um poeta-criador verdadeiro, também romântico, além de ser múltiplo e moderno. O pseudônimo Joaquim Palmeira mostra em Estilhaços um dos eus incluídos no poeta-autor Wilmar Silva. Outros eus vão, com certeza, dar continuidade ao seu trabalho poético e inconformista.



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Rita Dahl é poeta e jornalista finlandesa, mestre em ambos Ciências Políticas e Literatura Comparada na Universidade de Helsinquía. Estudou língua portuguesa na Universidade de Lisboa, publicou até hoje cinco livros de poesia e três livros das referências (non-fiction) e está organizando uma antologia da poesia portuguesa contemporânea para o finlandês, e da poesia finlandesa para o português e o espanhol. (Tambem co-ordina uma correspondëncia literário entre escritores africanos e finlandeses no 2011.) Blog: www.arjentola.blogspot.com

Publicado em Verbo 21

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