Poemas & entrevista na revista electrónica brasileiro DesEnredos

4 Poemas em DesEnredos:

o inferno

Uma estrutura concreta afunilada, com nove entradas
ao todo. O inferno é a contínua repetição de tudo,

sem que seja possível avançar. O inferno é gelado.
Para onde vão todos os gulosos macerados depois da morte?

O inferno está solto, um filme de ação ordinário,
os cristais fluindo das almas miseráveis que se agarram pelas mãos.

Talvez o inferno seja belo apesar de tudo.
Durante anos cheguei à conclusão

de que não há a igualdade nesse país.
Soa a campainha. Atrás da porta

dois mórmons bem trajados.
O inferno era gelado sobre a terra.

A caixa de comentários foi deslacrada naquele instante.
O inferno da família ou do paraíso, em qual

você pretende passar a eternidade? Tentei tolerar
a mim mesma e entender porque tenho saudades do

inatingível. O inferno verdadeiro dos anti-capitalistas
foi deixado de lado. O que acontece depois disso?

Sacrificamos seis garrafas, nada
acontece e temos de encher lingüiça.

Não se esqueça de que para um masoquista o paraíso é o inferno.
E é impossível saber se é quente ou frio.

Se o inferno está cheio, é preciso sentar-se e
esperar. Qual o problema com você?

Não sabia? Se o inferno é gelado,
a Finlândia ganhou o concurso de música da Eurovision.

[trad. Rita Dahl & Márcio-André]

[O Tempo dos Aphorismos, PoEsia, 2007]



Hiroshima, meu amor

Não há melhor introdução à semiótica do amor
que os cadáveres cobertos de cinza e de orvalho.

Eu estava um pouco indecisa. A viagem à Itália
também a impressionou enormemente.

Olhos azuis, cabelo preto,
também é lembrado como activista de direitos humanos.

Não qualquer avó senão a incarnação do amor,
renasceu como estendida e fictiva interpretação.

Não há namoro mais eterno
do que a comunicação entre a mulher e o homem.

A primeira versão deste era só fotos,
a seguinte pinturas.

Não é nada surpreendente que Hiroshima meu amor
se foi espalhando ao campo.

Que sim os canais lacrimais lá se purificam.
Espanto-me porque o meu amor se separou ontem?

Explodimos Hiroshima no ar, não é?

[trad. Linda Nurmi]
[O Tempo dos Aphorismos, PoEsia, 2007]



a rosa, também a rosa

A rosa, também a rosa, Lisboa não seria perfeita sem que a rosa florescesse a cada
estação do ano, esta rosa também não dá em qualquer lugar, somente no meio do Rossio,
os espinhos não tocam a ninguém tão de leve como aos passantes, eis
rosa a rosa de Lisboa, em si os sentimentos suaves que afloram
nesta cidade, ela é a rosa dos bandidos, das prostitutas e dos
traficantes, a rosa que acaricia com seus espinhos qualquer
um, esta rosa que não zomba, não odeia, ela recebe qualquer
que seja a densidade da pele, ela é a rosa dos encontros e
dos rumos, por isso cresce no meio do Rossio e
é rosa dos loucos e dos narcômanos, ela
se estica para tornar-se amiga
do estrangeiro, ela é a
rosa
do encontro

[trad. Rita Dahl & Márcio-André]
[O Encanto das Milles Escadas – Voltas em Portugal, Avain 2007]




Porto

Como dizer em palavras a beleza no horror, de mão dada
um casal atrás das cortinas, das paredes demolidas, jazz
injectado da agulha para as veias, camadas múltiplas de roupa
vestindo mendigos há décadas, década
que escapa para longe, magnífico
Majestic de candelabro brilhante, em branco
criados trazem café, membros rápidos,
espelhos habituados à verdade dos espelhos
nem a mim me mentem, a mim cuja face é mais pálida
que o café e os meus vizinhos com vozes roucas, porque

é que
edifícios neoclássicos, manuelinos e barrocos que louvam o esplendor
do ser humano, onde foram despendidos centenas de quilos de ouro, tudo o que o ser humano
pôde arcar nas suas mãos, a cancão rouca nos degraus da Capela das Almas, porque
pelo pó branco há que trabalhar duro, para estar sentado
com mão estendida frente ao Pingo Doce, gritar até a garganta
ficar sem voz, até os passantes pararem, olhando solícito nos olhos,
pedindo moeda, impondo Cais a alguém, revista
incluindo horóscopos por um ano, nada
sera vendido mas pode sempre dar-se uma esmola, algumas
moedas cuja vida no fundo do bolso seria prolongada em
vão, há que circular em divisas líquidas
os restos das muralhas
nada sabem disso, consumaram facilmente a dureza no mundo
mole de primos e vizinhos, sobem
as escadas vermelhas em forma de oito
para beber um café no cadeirão azul, descansam
no meio da fonte refrecante dos livros enquanto os outros
trabalham dia e noite pelo fino pó branco, seja o que for

oh Porto não te dei tempo bastante, acreditei
de mais na tua parede demolida e nos teus frágeis ossos, nas janelas
partidas, no cheiro da urina nas ruas, nas pinturas murais, embora
a caixa de cartão à esquina da rua seja mais quente do que o quarto frio da pensão, onde
me embrulho em muitas mantas como banana na casca e fecho
as janelas desta casa.

[Trad. Teresa Salema]
O Encanto das Milles Escadas – Voltas em Portugal, Avain 2007]


Rita Dahl nasceu em 1971, em Vantaa, na Finlândia. Publicou os livros de poemas Kun luulet olevasi yksin (Loki-Kirjat, 2004), Aforismien aika (PoEsia, 2007), Elämää Lagoksessa (ntamo 2008), . Também publicou um livro da viagem sobre Portugal, O Encantador de Mille Escadas (Avain 2007), uma coleção dos artigos Kuvanluojat das artistas visuais finlandesas que morreram jovens, poetas jovens finlandeses e escritoras internacionais (Kesuura 2009) e mais proximamente o livro Finlandizado liberdade da palavra (Multikustannus 2009). Foi responsável pela revista de poesia Tuli & Savu, em 2001, e também pela revista cultural Neliö. Editou uma antologia The Insatiable Furnace (Like 2007) escritoras da Ásia Central e de outras regiões do mundo, que foi publicado ao mesmo tempo com um encontro das escritoras da Ásia Central em Helsinquia em agosto de 2007, que Dahl coordenou. Atualmente, prepara uma antologia de poesia portuguesa contemporânea, traduz uma antologia da poesia dos anos 70 de Alberto Pimenta (Palladium-Kirjat) e edita uma antologia da poesia nova finlandesa em português, a lançada no Brasil em 2010 pela editora Confraria do Vento. Dahl foi vice-presidente do PEN Clube da Finlândia durante 2006-2009.

Márcio-André é poeta, violonista, editor e artista multimedia.

Linda Nurmi é estudante de filologia portuguesa.

Teresa Salema é germanista e escritora.

Comments

Popular posts from this blog

Kirjallisuus, valta ja vastuu -keskustelu huomenna

Sosiaalinen erakko

Surullisen hahmon ritari