Haastattelu A23-lehdessä

Portugalilainen runoilija ja portugalinopettaja António Jacinto Pascoal haastatteli minua. Haastattelu löytyy portugalilaisesta A23-taidelehdestä.


Entrevista a Rita Dahl
2-02-2009 | Entrevista

Rita Dahl (n. 1971) é escritora e organizadora de volumes literários em regime freelancer, de nacionalidade finlandesa (Vantaa). Formada em Ciências Políticas, tem ainda uma licenciatura em Literatura Comparada. Publicou duas colectâneas de poesia, Kun luulet olevasi yksin (Loki-Kirjat 2004) e Aforism aika (PoEsia 2007), além de um livro de viagens sobre Portugal, Tuhansien portaiden lumo – kultuurikierroksia Portugalissa (Avain, 2007). Além disso, é actualmente vice-presidente do PEN CLUB finlandês e preside ao Comité de Mulheres Escritoras. Trabalha também na tradução e edição de uma antologia de poesia contemporânea portuguesa. Encontrámo-la nos Encontros Internacionais de Poetas, em Coimbra, depois em Monsanto, e agora entrevistámo-la. Rita Dahl fala português e acedeu a partilhar connosco a sua vida literária, especificamente poética. Texto António Jacinto Pascoal
Dahl afirma que não hesitaria em usar qualquer palavra como ferramenta linguística e entende o conceito de liberdade poética como indispensável. Diz que a sua poesia actual se assemelha à vanguarda americana, em que se enfatiza o elemento mais ínfimo do quotidiano. Mesmo assim, não gosta de obedecer a regras, embora hesite entre estética e ética. Segue um certo experimentalismo modernista que se entrevê no gosto em usar o lexema “&”. No entanto, procura distanciar a linguagem poética da linguagem política. Dahl revela que a métrica se perdeu na poesia finlandesa actual, em que sobra apenas a musicalidade. E acredita ainda que a poesia pode salvar. Em criança tinha o sonho de ser presidente de um qualquer país e ainda agora se acha «um ser sem fronteiras». Especialista em Fernando Pessoa, Dahl considera que a poesia portuguesa tem uma natureza ambígua. E quanto à morte, não a receia.

Há alguma palavra que não caiba na sua poesia?

Não, todos os géneros de palavras são usáveis, como na vida: desde a palavra mais simples até à palavra mais sublime.

E há alguma palavra que tenha a consciência de nunca ter usado, de se ter recusado a usar?


Algum palavrão que tenha a ver com genitais femininos.

E uma palavra obrigatória?

Liberdade total na minha poesia – a poesia não-regulada. Não há palavras obrigatórias neste meu estilo poético.

Pode dizer-se que tem afectos com algumas palavras?

Claro: poética é política, mesmo que seja só ao nível pessoal. Por exemplo, os poemas que incluem o sentido muito forte da raça Afro-Americana podem funcionar como construtores de uma identidade ou pelo menos albergam a consciência das suas raízes étnicas.

Há o som e o sentido. O que prefere?

Prefiro a mistura de ambos: por exemplo, os meus poemas sobre Portugal reflectem as minhas impressões sobre o país, não só pela escolha das palavras, mas pelo ritmo, pela musicalidade.

Como definiria a sua poesia?

É sempre cada leitor quem define cada meu poema, após a leitura. E as leituras variam, de modo que não consigo dar uma resposta definitiva. Comecei com poemas modernistas & minimalistas & central-líricos, escrevi um livro experimental com ajuda do Google (o livro O Tempo dos Aforismos, 2007) que consistiu num poema de mais de 80 páginas, em movimento constante; depois surgiu um livro que inclui colagens & poemas prosaicos (A vida em Lagos, 2008). O mais recente livro chama-se Temas da orelha de Van Gogh, Ankkuri 2009, e inclui poemas sobre a esquizofrenia da vida actual & poemas influenciados pela natureza de Monsanto (onde estive, em Julho 2008, na residência de Idanha-a-Velha). Tenho uma grande vontade – um objectivo – de me renovar em cada livro.

Haverá uma tendência social a sobrepor-se a opções estéticas?


Mais uma vez diria que depende da particularidade do poema. A poesia que escrevo agora parece-se um pouco com a poesia da vanguarda americana, que é uma mistura das tendências sociais & estéticas. Esta estética valoriza também a matéria que tradicionalmente foi considerada “não-estética”, chã, quotidiana, não-sublime. Também mistura tendências sociais com finalidades linguísticas: o mundo pode ser mudado só pela linguagem que constrói “a realidade” (que é sempre uma construção imaginária) e que traz outras representações. Mas tenho também poemas que são mais estéticos do que sociais (poemas sobre Portugal). Pelo que atingem a harmonia talvez pela associação de forma e conteúdo.

Escreve mais com palavras do que com ideias?

Depende: escrevo poemas com vários estilos. A musicalidade, o ritmo têm muita importância nos meus poemas sobre Portugal.

Como é o seu processo de escrita? Parte de uma ideia? Parte de uma palavra ou até de um verso?

Parto duma ideia, ou de um verso/expressão. Depois seguem-se as outras palavras, facilmente ou com maior dificuldade.

A sua actividade de jornalista valorizou a sua relação com as palavras? Haverá um estilo prosaico no seu discurso?

Tenho publicados 4 livros de poesia muito diferentes. O estilo dos poemas vai de um género muito minimalista e modernista até poemas de prosa alongada, como em A vida em Lagos. Tenho escrito poemas em estilo prosaico, mas também poemas que seguem uma certa forma (villanelle, por exemplo) e que são eivados de lirismo & se fundem em imagens mais tradicionais e fixas. Nos poemas mais recentes (2 livros: O tempo dos Aforismos & A Vida em Lagos) há uma maior tendência social, experimentalidade e “estética da linguagem plana” (plain).

Até que ponto a prosa jornalística poderá interferir na sua relação com as palavras?

Os meus poemas são poemas, e a prosa jornalística nada tem a ver com eles. Tratar-se de um poema prosaico é uma coisa diferente.

E as Ciências Políticas: como fazem elas parte do processo da sua poética?

Tenho licenciaturas em Ciências Políticas & Literatura Comparada (sobre Pessoa). A minha formação tem a ver com a minha visão do mundo, que é simplesmente esta: um homem está situado no centro de estruturas sociais complexas e com os outros seres vivos. Mas, evidentemente, os poemas são entidades separadas & independentes linguisticamente. A minha visão reflecte-se nos meus poemas, mas o poema não é uma tese.

Escreve para si primeiro do que para os outros?

Escrevo para o leitor. Claro, para os outros!

Não vislumbro métrica nem rima na sua poesia. Considera-os espartilhos?

A métrica não tem muita coisa a ver com a poesia contemporânea finlandesa em geral, e com a minha também não. Nos meus poemas sobre Portugal há ritmo e musicalidade. No meu livro mais novo, o quarto, Temas da orelha de Van Gogh, há poemas escritos sob certas formas: villanelle e sonetos. Não os considero espartilhos, só que até agora não houve muito interesse da minha parte.

Que espécie de regra segue na sua poesia?

Não há regras. Só há liberdade de pensamento, e imagens fluidas, que correm constantemente. O facto de escrever poemas colagens/prosaicos não quer dizer que haja qualquer regra neles.

Considera a poesia uma espécie de fé? Algo que a possa salvar?


Um poema pode fazê-lo: há efeitos só ao nível de cada indivíduo que os lê. Um poema pode salvar & restaurar a vida dum indivíduo de uma maneira ou outra. As pessoas têm problemas diferentes: falta fé neste mundo comercial/capitalista & os seus efeitos vêem-se na forma como somos para com a natureza. Há problemas de fé pessoal. Um poema pode funcionar como um medicamento para este tipo de problemas.

Recusa a pretensão de escrever para a eternidade?

Claro! Mas penso que a minha vocação foi a de ter sido trazida a esta terra para escrever e trabalhar, pelos escritores ameaçados, e faço-o no PEN, associação que defende a liberdade da palavra.

Qual é a sua relação com o leitor? Sente que escreve também pela pressão dele?

Nunca! A pressão existe só do meu próprio lado, mesmo uma certa obrigação.

Há alguma máscara com que se disfarce na sua poesia ou é nela que é mais autêntica?

O tempo de Aforismo é um livro com múltiplas vozes & uma linguagem fluida. A voz mais autêntica (identificada comigo) talvez seja um pouco mais melancólica, preocupada com o mundo globalizado & com a natureza & é uma voz um pouco filosófica também.

Nasceu em Vantaa, perto de Helsínquia. Isso é possível ler-se nos seus versos?

Não – os meus versos são universais, tal como eu sou um ser sem fronteiras.

A natureza parece servir de pretexto à sua poesia para alegorias poéticas sobre a condição humana. Aceita esta asserção?

Sim, claro, e esta não é novidade nenhuma na poesia em geral. A natureza humana tem estado presente desde a poesia antiga.

A sua infância foi convencional ou houve factos improváveis?


A infância nunca é fácil, porque é o tempo de construção dos nossos valores e da nossa imagem do mundo, mas não tive nada de mais grave do que as pessoas em geral.

Algo adivinhava em si, desde cedo, essa apetência pela poesia?

Sempre escrevi muito bem na escola e as minhas redacções habitualmente eram lidas em frente da classe. Fui uma excelente aluna às outras disciplinas também, especialmente em música (eu canto). Comecei como crítica de música, depois como jornalista e agora sou autora, que é uma das profissões com que eu sonhava quando fui criança. Sonhei ainda ser professora e presidente…

Presidente?

Sim, presidente dum país e professora universitária. Nunca tive sonhos pequenos.

Pode descortinar-se algum carácter de transgressão na sua obra?

Se se entende a transgressão em termos linguísticos, com certeza, especialmente nos meus livros mais recentes, desde O tempo do Aforismo. A poesia tem que tentar renovar e reconstituir o mundo, começando por fazê-lo linguisticamente. Esta reconstituição pode fazer-nos emendar o mundo.

A Rita tem as suas filiações poéticas. Pessoa é uma delas?


A ideia de multi-personalidade controlada interessa-me. Também a natureza dos seus poemas: há tanta melancolia, tanta procura de si mesmo.

E que outros poetas a influenciaram decisivamente?

Não digo! Mas leio muito a poesia mais jovem americana (que valoriza a simplicidade & a anti-estética, e a linguagem quotidiana) e tenho interesse pela L = A = N = G = U = A = G = E –, movimento de Charles Bernstein & companhia, a sua poética e concepção política. Isso talvez se possa ver nos meus poemas.

Sente medo da influência?


Não, mas eu não posso nomear conscientemente as minhas influências revelando nomes. Acho que toda a leitura pode ter um efeito em nós, inconscientemente. Não conseguimos ser nunca completamente originais.

Acabou de fazer uma antologia de poetas portugueses. Considera que a poesia portuguesa tem um lugar importante no panorama mundial?


Ainda não acabou, continuo-a, e provavelmente sairá daqui a uns anos. Sim, por que não? A vossa língua é uma das línguas francas & a poesia portuguesa tem uma natureza ambígua: há um lado das imagens muito sensíveis (de Eugénio de Andrade) e, por outro lado, há a poesia de pensamento muito racional & religioso (Faria & Régio), mas também existe o meio-termo entre estes dois pólos.

Certamente encontrou também maus poetas…

Sim, mas não os leio!

Como vê o deserto em que encontra a literatura finlandesa em Portugal e a que o deve?

Deveria haver mais gente conhecedora da nossa língua que poderia actuar como embaixadora entre os nossos países e traduzir pelo menos algumas obras mais conhecidas ou recentes.

Sente-se ameaçada pela morte?

Não, o que acontece, acontece. Mas eu gostava de viver 30 ou 40 anos mais!

A poesia poderá ser, em última análise, um paliativo em face da morte?

Eu não cultivo a relação entre morte & poesia. A poesia é primeiramente viva, o símbolo duma pessoa criativa.

Dylan Thomas dizia que «o mundo não fica nunca o mesmo quando um bom poema lhe é acrescentado». Há verdade nestas palavras?

Sim, claro, mas, como já mencionei, a mudança só acontece ao nível individual, no cerne de cada leitor.

Quais são os seus versos de que mais se recorda?

Do meu livro sobre Portugal, O Encantador das mil escadas (2007):

E eles têm escrito 
sobre a descida das escadas e da saudade por alguém indizível que 
nunca irão encontrar e para afirmar suas palavras eles bebem mais bagaço
para que a vida sinta alguém só por um momento, mesmo com a ausência causada
pela bebedeira e eles escrevem sobre beber e ao escrever eles embriagam-se mais.
E um verso de um autor da sua preferência?

De Walt Whitman´s Song of Myself (1891): “I am the poet of the Body and I am the poet of the Soul, / The pleasures of heaven are with me and the pains of hell / are with me, / The first I graft and increase upon myself, the latter I / translate into a new tongue.”

Um comentário a Entrevista a Rita Dahl

1. musicalidade.net - Entrevista a Rita Dahl em 8.2.2009 11:12 pm

[...] de ser presidente de um qualquer país e ainda agora se acha «um ser … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]


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Comments

João Rasteiro said…
Excelente entrevista - tanto ao nível das perguntas, como das respostas.
Claro que vivendo mais 30/40 anos a Rita vai mesmo ser presidente e claro que nunca ter tido sonhos pequenos é o primeiro passo para concretizar (o que é tão difícil no mundo actual)algum sonho, mesmo que pequeno.
Sobre a "poiésis", é realmente (com apenas 4/5 livros de poesia, essa vontade brutal de se renovar/questionar constantemente - "uma grande vontade – um objectivo – de me renovar em cada livro", pois só assim é possível manter a ilusão que conseguimos acompanhar e descortinar o mundo (ou "os mundos", como refere Bernstein) em seu eterno poder de LINGUAGEM e por isso essa esperança e ilusão de que se pode mudar o mundo/mundos - "Um poema pode fazê-lo: há efeitos só ao nível de cada indivíduo que os lê. Um poema pode salvar & restaurar a vida dum indivíduo de uma maneira ou outra".
Foi bom reaver e redescobrir (a renovação do meu conhecimento, relativamente à Rita, ou a descoberta de outra Rita, a actual, e não a de 2008. Interessante a afirmação de que não tem medo da influência ("A Angústia da Influência" de Harold Bloom), só um ligeiro desacordo, ou complemento, quando afirma não ter medo da morte, e que "o que acontece, acontece". É importante referir, e naturalmente é o que eu penso, que a morte não existe, (a morte é vida renovando-se em múltiplas raízes) aliás, tal como canta Herberto Helder, a morte não existe, ou se existe em seus múltiplos factores, é para mitificar e eternizar o amor, ou seja, a vida em seu total esplendor.Como já me alonguei, apenas um grande abraço ao António J. Pascoal, e de forma mais "ternuropoética", um grane beijinho para/à Rita.

João Rasteiro
dahl said…
Obrigado João pelas palavras muito amicáveis & bem reflectidas! Vamos ter elecões de PEN logo & nunca se sabe se conseguir atingir o fim. Isso é de ser presidente.... :) Só poderia ser o presidente deste típo da associacão.

Quanto à poiesis de LANGUAGE-escola, penso que a renovacão for necessário, e efectua pela leitura sempre. À não esquecer o papel do Autor, que no fim escolhe a linguagem usada.

Uma descoberta das outras personas nunca pode ser mal, não achas? Acho pessoalmente que somos todos pluraís. Um grande beijinho para ti tambem

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