Meus poemas traduzidos por Jacinto Pascoal

Rita Dahl

O sangue do poeta (Runoilijan veri)

O sangue do poeta seca no verso razoável,
Alguém também o apaga,

diz-me que amas e o sangue reacende,
corre à cabeça e sou tratada de forma diferente.

Tu não podes lavar o sangue do poeta com o teu sangue sujo!
O coração ainda é bastante forte para sair da pedra

que antes causou ofensa.
Primeiro o olhar virou-se para a China,

onde o sangue borbulhou do peito do trabalhador migrante.
Por que é que não circula o sangue até à cabeça de todas
as pessoas?

Infelizmente, não existe em mim sangue de poeta
mas desta vez o meu esforço saldou a dívida.

Para onde corre todo esse sangue, perguntou a mosca ao mosquito?
A mulher é o auto-retrato do poeta, a taça do incenso,

o status. O sangue pingou para o chão como tinta.
A junta torturou as visões escondidas no juízo do poeta.

O sangue corre nas veias vindo de um mundo
intermédio. O juízo escondido nas folhas

do poeta, desobediente para que o sangue circule,
para tornar a terra luxuriante. Uma frase preencheu-o:

“Que sejas abençoado”.
Se houver uma só gota de sangue que seja

nas veias do poeta, ele será espancado e violado
até que os seus olhos sangrem.

Eis a melopeia por detrás de tudo isto: “sem um corpo, o sangue apenas é
um charco”.
O poeta mijou sangue por ti,

mudou as fraldas, engoliu a neve de
muitos invernos. A arma do poeta livre é

o sangue doce de uma virgem que jorra
de um golpe para o interior do peito. O algodão ou qualquer outra protecção eram

inúteis.
Ela decidiu matricular-se apesar de transpirar sangue.



O inferno (Helvetti)


Uma estrutura de cimento afunilada com nove
portas ao todo. O inferno quer dizer que tudo se repete,

que não há movimento em frente. O inferno é gelado.
Para onde vão todos os glutões gordos depois da morte?

O inferno anda à vontade, um filme de acção vulgaríssimo,
os cristais transbordaram das almas miseráveis que seguram as
mãos de cada qual.

Talvez o inferno afinal seja belo. Maldito inferno!
Com os anos concluí

que não há a igualdade neste país.
A campainha tocou. Há dois

mórmones bem vestidos à porta.
O inferno gelou na terra.

A secção dos comentários quebrou ao mesmo tempo.
O inferno numa família ou no céu, em qual

vais passar a tua eternidade? Tentei tolerar-me
e perceber porque anseio pelo inatingível.

Um verdadeiro inferno de anti-capitalistas
anda à solta. Que acontece depois?

Sacrificámos seis garrafas, nada
acontece e tem de se preencher o tempo de transmissão.

Lembra-te de que o céu é o inferno para um masoquista básico.
O inferno é um lugar frio ou quente?

Se o inferno estiver cheio, terás de te sentar
e esperar. O que se passa contigo?

Não sabes? Se o inferno gelou,
a Finlândia venceu o concurso da Eurovisão.



A cidade de brancas escadas (Valkoisten portaiden kaupunki)


Lisboa, cidade de brancas escadas, inúmeros poetas
têm descido as tuas escadas, as tuas escadas semelhantes a ancas
descrevendo essa descida até ao
brilhante Tejo azul com os seus
dourados bancos de areia. Ou têm-se sentado nas mais afastadas esquinas
de sombrios bares interrogando-se por que razão
as suas vidas são tão miseráveis, por que os seus destinos
são demasiado fundos para poderem caber em palavras,
e bebem por estes pequenos copos e mandam vir mais, e perguntam por que
a vida não lhes deu outro papel. E eles têm
escrito sobre como desceram as escadas, e sobre a saudade de algo
inefável que nunca hão-de atingir e, como que para confirmar essas palavras, bebem
mais bagaço para que possam sentir alguma coisa, ainda que só por um instante, mesmo que pelo esquecimento da embriaguez, e eles escrevem sobre embebedar-se e ao mesmo tempo ficam ainda mais bêbedos. E eles sorvem os seus copos até ao fundo, escrevem versos
nas escadas que descem ao Tejo, e noutros copos ainda por esvaziar, de forma a
poderem esquecer esta descida e a vida poder ganhar uma curva ascendente, como
o instinto do voo ou o acto de voar por si, e eles erguem-se das suas cadeiras
como se se levantassem e partissem da porta do bar enquanto
os últimos clientes chamam pelos seus nomes.



Há um anseio em mim (Minussa on halu)


Há um anseio em mim por noites sem noite, pelo dia
que nasce tardio, pelos imensos sóis nascidos
em simultâneo, há um anseio por chuva, caindo
como véu. Há um anseio em mim, mas
não vontade, eu uso ferramentas simples, a voz do martelo e do
machado na noite mais escura. Como se martelando
eu pudesse tocar algo, uma noite escorregando pelo negro
muro, os caracteres rúnicos, quem sabe um nome.


Uma rosa, também uma rosa (Ruusu, myöskin ruusu)


Uma rosa, também uma rosa, Lisboa não é perfeita sem uma rosa que floresça em cada
estação, e a rosa floresce em qualquer lugar mas no meio do Rossio
os seus espinhos não arranham ninguém melhor do que quem passa,
essa rosa é a rosa de Lisboa, a que contém todos os sentimentos ternos que desabrocham
nesta cidade, é a rosa dos bandidos, das prostitutas e dos traficantes de droga,
a rosa que com seus espinhos afaga quem assim quiser,
a rosa que não troça, não odeia, que aceita qualquer um sem olhar à
cor da pele, e é por isso que floresce no meio
do Rossio e essa rosa é a rosa dos
loucos e dos toxicómanos, oferecida
quando alguém quer fazer amizade com
um estranho, ela é
a rosa da
amizade

Trad. Jacinto Pascoal

Comments

Anonymous said…
Terve Rita Dahl !

Olen tuskin puolivälissä tuhansia portaita mutta jo nyt täysin lumoutunut. Matkakirjojen(kin) ystävänä K i i t o s hienosta kirjasta !

Jukka Särkkä
dahl said…
Kiitos kiitoksista! Tekijän mieltä lämmittää tietysti aina, jos (vaivalla) tehty miellyttää myös lukijaa, jolle teos on osoitettu.

Popular posts from this blog

Kirjallisuus, valta ja vastuu -keskustelu huomenna

Surullisen hahmon ritari

Malawi folk-tale